domingo, janeiro 26, 2003

Baby, eu te vi na janela, olhando as luzes muito longe, e tive medo.
Medo de não acontecer nada, nada além de um vinho burocrático e compulsório (qual de nós desistiria simplesmente, afinal?), uns beijos estranhos, transferidos (qual de nós?), uns carinhos sinceros e tortos.
E tive medo de acontecer; de o vinho bom ajudar, de os beijos serem mesmo nossos e de os carinhos, quanto mais feitos, mais faltarem. Medo de ser tão bom quanto deveria.
Eu achei que estava pronto, que nos conduziria (e o vinho, os beijos e o carinho) no meu ritmo seguro, conhecido, que me deixa pensar e estar a salvo. Mas eu perdi o passo, me esqueci do vinho enquanto te bagunçava os cabelos; quando tentei pensar nos cabelos estava te beijando e, quando olhei para a sua boca, já estávamos sem roupas, e minha segurança jazia na calçada 16 andares abaixo de nós.
Não tive mais tempo de pensar, programar, analisar, entender. Ou de ter medo. E meu corpo se encontrou, se reconheceu na febre, na entrega do seu corpo. E eu estive inteiro.
Então veio a água.
Água que escorria pelas paredes, saía pelos canos, pelos cantos, pelas tomadas. Água que tomou todo o chão, todo o tempo, toda a pressa. Esse tempo que parecia pouco ficou sem fim, depois de eu ver o dragão que brincava na água e sorria.
Quando saímos da água não éramos mais. Eu era outro, que já conhecia essa outra você há muito, e sentia saudade. Nós (outros) trepamos então, devorando esses anos de saudade que a água descobriu.

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