quinta-feira, maio 01, 2003

Há algo nessa mulher que eu sabia conhecido, uma sensação confortável, acolhedora. Lembrança de gente que nos dá prazer apenas por estar ao lado, por algum tempo, caminhando junto. De gente com quem passei dias estranhos, e cuja presença tornou o mundo mais agradável. Que diabos de sensações familiares eram essas? E há pouco tempo, de repente, me lembrei...

Quando eu estava no quarto ano da minha faculdade, em Araraquara, morando na república de pior fama da região, dividindo embalagens de 5 litros de shampoo de pêssego com 10 outros desequilibrados, recebemos em casa um calouro vindo de Pouso Alegre, MG. Por uma bobagem na comunicação o menino ganhou já no primeiro evento "social" o apelido de mariposa. E era bom, nosso mariposa. Tocava um violão honesto (médio, mas honesto) e cantava muito mal. E inventava jogos. Atravessava madrugadas criando jogos, seus tabuleiros, peças, regras, sozinho pela casa. E uma vez quis comprar 1/2 tonelada de limões. Não importava para ele o que viéssemos a fazer com os limões depois, mas poder dizer, um dia, que quando morava na república de pior fama da região, havia comprado 500 quilos de limões.

Mas o mariposa tinha mais alguma coisa que demorei a perceber o que era...

Ele falava dos amigos que deixara em sua cidade e víamos pessoas mágicas, seres maravilhosos, brilhantes! Cada um de seus amigos possuía características únicas, incríveis, encantadoras, que às vezes nos faziam gargalhar, entristecer, nos emocionar. Pude, com o passar dos meses, ir conhecendo cada um destes amigos. E um tipo de estranheza, quase desapontamento, surgia nestas ocasiões. Onde estavam aquelas criaturas fantásticas que ele nos havia descrito? Quem eram estas pessoas -- tudo bem, até legais -- que estavam à nossa frente? Mas com o tempo esse incômodo ia passando, íamos relaxando e nos entregando distraídos à convivência com esses estranhos. Acabávamos percebendo, depois, que o mesmo acontecera com os amigos de infância do mariposa, que estavam sendo colocados frente à frente com os super-amigos (maravilhosos, brilhantes!) que o mariposa havia feito na faculdade. Era quando (mágica!) começávamos a perceber as características únicas, incríveis, destes meninos e meninas. E notávamos então que essas características haviam estado ali todo o tempo, gritando, saltando, batendo em nossas cabeças míopes. O mariposa tem esse dom; ver com clareza, naturalmente, as maravilhas das pessoas que o cercam.

Nesses últimos 6 ou 7 anos tenho ligado para o mariposa, religiosamente (eu posso ligar religiosamente?), a cada aniversário. Mas admito que tenho esquecido um pouco de algumas sutilezas desse menino. Até sentir aquela coisa estranha convivendo com a Zel, que vê com facilidade, em cada ser ao seu redor, o que há de mágico, brilhante e único (e por isso solitário, que às vezes dói).

É isso, essa menina tem algo de mariposa... (viria daí o medo da taturana?)

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